A Enorme Greta

Gre­ta Thun­berg

Sem­pre tive imen­sos pesade­los, des­de peque­na que são recor­rentes até hoje. Ten­do em con­ta que os pesade­los cos­tu­mam diminuir a par­tir da puber­dade, esta deve ser mais uma pro­va que deix­ei a min­ha mente lá atrás, nos quinze anos, enquan­to o meu cor­po seguiu viagem, rumo ao amadurec­i­men­to. Isto pode tam­bém explicar porque gos­to mais da roupa da Bersh­ka do que da C&A, mas não nos desviemos do assun­to.

Ao con­trário dos son­hos bons (infe­liz­mente), nos pesade­los, mes­mo após des­per­tar e nos min­u­tos que se seguem, a pes­soa exper­i­men­ta uma sen­sação vivi­da e com aparên­cia real que é tão mais assus­ta­do­ra do que o próprio pesade­lo. É sabido que os pesade­los são uma répli­ca das nos­sas fobias. Se por exem­p­lo temos fobia de ara­nhas, o son­ho pode vir a con­ter arac­nídeos mon­stru­osos e assim por diante.

Pos­to isto, estou a pen­sar, seri­amente, em rev­er as min­has próprias fobias, isto é, sub­sti­tuir umas pelas out­ras, para que pos­sa escol­her as ima­gens dos meus pesade­los. Logo, se sub­sti­tuir a fobia às ara­nhas por fobia aos “Trumps” des­ta vida, quem sabe se não con­si­go, numa noite inspi­ra­da de lua cheia, son­har (ou, direi “pesade­lar”) com o assas­si­na­to do Trump, per­pet­u­a­do por mim mes­ma. A questão que se colo­ca, depois, é se isso não iria sair da cat­e­go­ria dos pesade­los para a cat­e­go­ria dos son­hos cor-de-rosa, mas fobias são fobias e cada um sabe das suas.

A esta altura já estão a pen­sar que não é pos­sív­el mudar as fobias, assim, a nos­so bel-praz­er, mas deix­em que vos diga que essa oper­ação men­tal deve estar, cer­ta­mente, no Google. Com as palavras-chave cer­tas não deve ser difí­cil de encon­trar um vídeo no youtube para a tro­ca de fobias. Ten­ho fé que sim. Quero diz­er, eu não vi, mas acred­i­to que haja.

E a que vem a propósi­to isto tudo? Muito por causa das grandes tragé­dias que se estão a abater sobre a humanidade. A recente tragé­dia em Moçam­bique não é senão uma con­se­quên­cia da redução de 16% do número de plan­tas ou de 8% do número de ani­mais ver­te­bra­dos, de um árti­co sem gelo vários verões em cada déca­da, dos mais de 400 mil­hões de pes­soas em todo o mun­do expostas a vagas de calor insu­portáveis, risco de secas e de escassez de água a aumen­tar sub­stan­cial­mente… e a lista é infind­áv­el.

Mas, não há tragé­dia maior que se aba­ta sobre a humanidade do que a própria estu­pid­ez humana. E essa sim será a raiz da nos­sa extinção. Só espero que sejamos como os dinos­sauros e nos exting­amos a nós próprios sem levar o plan­e­ta Ter­ra por diante.

O pior é que à medi­da que a tem­per­atu­ra sobe no plan­e­ta, a estu­pid­ez humana cresce, expo­nen­cial­mente. A estu­pid­ez (diz­er humana é um per­feito pleonas­mo porque não há out­ra fonte de estu­pid­ez na Ter­ra) é, pois, democráti­ca, interg­era­cional e trans­ver­sal a todas as class­es soci­ais e por isso é tão pop­u­lar. Não cus­ta din­heiro e está cada vez mais acessív­el através das redes soci­ais, a chama­da estu­pid­ez viral. Tu repro­duzes uma ideia estúp­i­da e sabes que quan­to mais estúp­i­da ela for mais pos­si­bil­i­dades há de que seja repro­duzi­da. O cha­to é que não há aqui con­trace­tivos que nos val­ham. Porque o úni­co con­trace­ti­vo efi­caz con­tra a mul­ti­pli­cação da estu­pid­ez seria a edu­cação e a infor­mação, mas isso, infe­liz­mente obri­ga-nos a pen­sar que é algo que está com­ple­ta­mente démodé. Se cal­har impli­caria pagar a jor­nal­is­tas a sério o que está com­ple­ta­mente fora de questão porque depois não teríamos onde meter os miú­dos estag­iários que escrevem estu­p­ida­mente sobre ideias estúp­i­das, a tro­co de uma sandes e do passe social.

E pron­to, chegá­mos ao “trump­is­mo”, aos pesade­los e às fobias por catál­o­go que os provo­cam. Porque o sis­tema políti­co, económi­co e social (não, não há cul­tur­al, des­culpem) da atu­al­i­dade é basea­do no trump­is­mo que ele­va a estu­pid­ez á cat­e­go­ria de “award” uni­ver­sal, com um júri pior, garan­to-vos, do que do Mas­terchef Por­tu­gal. E não, o trump­is­mo não gras­sa só na Amer­i­ca ou em cer­tos país­es do Con­ti­nente Europeu. O trump­is­mo é a bíblia dos políti­cos de hoje. Ain­da que seja politi­ca­mente cor­re­to diz­er que somos todos con­tra a tram­pa do Trump. O cer­to é que “Somos Todos Trump” de uma for­ma mais ou menos vela­da e hipócri­ta.

O povo foi feito à imagem e semel­hança de Trump. A opinião públi­ca é uma espé­cie de plá­gio do Trump e os políti­cos limi­tam-se a ser aqui­lo que esper­am que o povo espera deles. Mes­mo quan­do o povo diz que não gos­ta dos trump­is­tas está a agir como os políti­cos que dizem o con­trário do que pen­sam e são sin­ceros quan­do agem ao con­trário do que dizem. Con­fu­sos? Prestassem atenção às aulas de matemáti­ca.

Don­ald Trump não é um caso iso­la­do e não chegou à presidên­cia dos EUA por causa dos algo­rit­mos. Cul­par o Sr. Mark Zucker­berg é deitar areia para os olhos ou arran­jar um admiráv­el “nerd expi­atório”. O trump­is­mo está em alta e eu não me estou lá a sen­tir muito bem.

Se não fos­se assim, se a estu­pid­ez humana não estivesse num crescen­do, o plan­e­ta não estaria à beira do colap­so. Até nós, por­tugue­ses, temos as nos­sas fig­ur­in­has de trump­is­mo mod­er­a­do, em todos os quad­rantes políti­cos, que a nos­sa democ­ra­cia é jovem mas não é tola.

Para os mais desaten­tos temos que recon­hecer que este Gov­er­no aprovou, recen­te­mente, o Roteiro para a Neu­tral­i­dade Car­bóni­ca e o Plano Nacional de Ener­gia e Cli­ma. Mas, olhe­mos bem para os out­ros “Planos” que exis­tem para a Saúde, para a Edu­cação e por aí adi­ante e tire­mos as nos­sas con­clusões. “Cada plano, cada mel­ro” diria um caçador expe­ri­ente.

Um dia acor­damos e tomamos con­sciên­cia de que esta­mos todos a viv­er den­tro do nos­so próprio pesade­lo. Aque­les que não foram inun­da­dos pela subi­da do nív­el do mar, serão o neo-mod­er­nos migrantes força­dos, refu­gia­dos não políti­cos ou económi­cos, mas climáti­cos que é mais fino. E ninguém terá noção da inimag­ináv­el dis­rupção social e políti­ca que acar­retarão. Terá que ser uma miú­da de 15 anos a explicar-vos tudo seus estúpi­dos?

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Paula Lamares

Depois fui amanhecendo, um fiozinho de mim por ali afora, dias adentro de varanda ao colo. Até que comecei a pegar aos poucos na rédea do enfado, a realidade menos pegajosa e morna, devagarinho a vestir-me de mim:... Acendia-se as primeiras luzes na serra. Se me desse na veneta hoje voltaria a escrever. Desde então não paro de nascer.
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