Ta ta ta ta ta ta taratata

Imagem Youtube do novo vídeo oficial de Maria Leal
Imagem Youtube do novo vídeo ofi­cial de Maria Leal

Por­tu­gal é um país de fas­es. Por exem­p­lo, a fase pré-Madon­na Cic­cone. Nes­ta fase esta­mos a falar de um país obscuro e cinzen­tão, cheio de gente vesti­da de vários tons de cinzen­to. Só os mais atre­v­i­dos, mor­mente políti­cos e bancários, usavam gra­vatas amare­lo impac­tante, azul cue­ca ou cor-de-rosa bebé. Um país onde só se ouvia o fado e os filmes con­sis­ti­am em histórias rurais de gente desal­in­ha­da que lev­am 30 min­u­tos a abotoarem as botas.

Um país ter­riv­el­mente mar­ca­do pela ditadu­ra que con­tin­ua, qua­tro décadas depois, a amar incondi­cional­mente o seu dita­dor — um ver­dadeiro case study para os estu­diosos do Sín­drome de Esto­col­mo. Um país onde o povo não vai ao den­tista, mas tem um record de ven­das de car­ros topo de gama. Onde as cri­anças podi­am apan­har sol e chu­va na cabeça e respeitavam imen­so os pro­fes­sores. Onde as mul­heres engor­davam depois dos 30 e os home­ns iam “engravi­dan­do” até aos 70. Onde as artes eram con­sid­er­adas abso­lu­ta­mente desnecessárias e as pes­soas não tin­ham edu­cação musi­cal.

Um país só vis­i­ta­do por ingle­ses bêba­dos que per­diam as cri­anc­in­has ou por tur­is­tas holan­deses que usavam meias com sandálias de tiras ader­entes. Um país de par­ques de camp­is­mo, de peixe fedoren­to, de pra­ias par­adis­ía­cas dec­o­radas por blo­cos de con­strução, de gente pequen­i­na com jeito para o fan­dan­go, de man­gas-de-alpaca cor­rup­tos e moral­is­tas de cate­quese reunidos numa só pes­soa. Dos padres pitorescos que cui­davam de todos, sobre­tu­do dos que mor­ri­am ricos. Um país olvidáv­el e pouco recomendáv­el, no cú da civ­i­liza­ção mod­er­na.

Depois temos a fase pós-Madon­na. A fase onde o fado é ele­va­do a músi­ca pop e o cante alen­te­jano a can­to líri­co. Onde todos can­tam e gravam video­clips, emb­o­ra con­tin­ue a não haver edu­cação musi­cal nas esco­las. Onde todos escrevem livros, mas onde ninguém lê… livros. Onde as cri­anças já não podem apan­har sol nem chu­va na cabeça, mas, em con­tra­parti­da podem bater nos pro­fes­sores.

Um país ren­o­va­do, aber­to, mod­er­no e hip­ster-cul­to que uma espé­cie de geringonça gov­er­na. Um país que atraí todas as idades, géneros e etnias a con­viverem em restau­rantes e bares mod­er­nos na cap­i­tal mais “in” do momen­to. Um país que recebe mais Óscares de Tur­is­mo do que a Meryl Streep no cin­e­ma. Um país com uma cap­i­tal res­p­lan­de­cente, alter­na­ti­va e mul­ti­cul­tur­al, sub­meti­da ao poder oligárquico da EMEL que põe os car­ros na lin­ha. Onde os CEO andam de trotinete à boli­na do ven­to e os ban­queiros pro­movem star­tups em off­shores. Uma cap­i­tal de pré­dios ren­o­va­dos e fachadas dig­nas de um Siza Vieira, mas onde a Athi­na Onas­sis só teria din­heiro para alu­gar quan­to muito um T0 de 65 m2.

Mas, este é e con­tin­ua a ser um país de acen­tu­a­dos con­trastes, onde a som­bria men­tal­i­dade medieval se encon­tra à esquina com a men­tal­i­dade urbana e esclare­ci­da e ficam as duas em ame­na cavaque­ira, a beber “bejo­las” e a tocar con­certi­na. Tal promis­cuidade às vezes dá para o tor­to como se viu, recen­te­mente, no inci­dente diplomáti­co que opôs a Repúbli­ca Por­tugue­sa à Repúbli­ca das Bananas by Madon­na.

Este é um ver­dadeiro caso de relações inter­na­cionais que irá dene­grir a imagem de Por­tu­gal por este mun­do fora. De nada nos vão servir o cli­ma, a comi­da, o Ben­fi­ca e as pra­ias seguras. Tudo porque um pir­ral­ho pres­i­dente de câmara, per­feito rep­re­sen­tante da tal men­tal­i­dade medieval e tacan­ha do tem­po da out­ra sen­ho­ra, que impediu a Con­ste­lação Madon­na de faz­er um video­clip com um puro-sangue de 600 qui­los a dançar sap­atea­do num soal­ho de um palá­cio oito­cen­tista. Este grave inci­dente, para além de acabar com o mito de que somos o povo mais diplomáti­co do mun­do, mostra, sobre­tu­do, a ingratidão do povo por­tuguês.

Este povo que lava­va no rio antes de Madon­na chegar e, que ago­ra, graças aos posts no Insta­gram da estrela pop, todos pas­saram a ter aces­so a crédi­to para com­prar os últi­mos mod­e­los de máquinas de lavar roupa. O namoro de Madon­na com Por­tu­gal acabou e nem sequer deu num mulat­in­ho para con­tar a história. Está bem que a Sen­ho­ra está a expi­rar a val­i­dade, mas não seja por isso, já que ado­ta­mos o Iker Casil­las sem qual­quer polémi­ca.

Hel­lo! Defen­sores da igual­dade de género?!

Imagem Youtube do novo vídeo oficial de Maria Leal
Imagem Youtube do novo vídeo ofi­cial de Maria Leal

Por­tan­to, a Madon­na foi-se, mas sem­pre temos a nos­sa genuí­na Maria Leal.

Eis que Por­tu­gal entra, assim, numa nova fase – Fase da Leal­dade. Qual Conan Osíris qual quê? Este nun­ca rep­re­sen­tará tão bem o país em qual­quer fes­ti­val como o faria a Maria Leal. Isso dos Telélés do Osíris é só para hip­sters pós-mil­len­ni­als que o vul­go homem comum não entende.

Ao menos a Maria Leal está com o povo e fala para o povo e ago­ra tam­bém para as cri­anc­in­has, senão vejamos o seu últi­mo tra­bal­ho: “Ta ta ta ta ta ta tarata­ta /Tá demais /traz os teus pais /isto vai ser uma ani­mação”. Isto é que é poe­sia, não aque­la que fala sobre mortes e telemóveis par­tidos.

Com ani­mação garan­ti­da para as famílias e, ain­da, descon­to em cartão, porque raio é que nós pre­cisamos de “Like a Vir­gin?” a pavon­ear-se no Bair­ro Alto?

Paula Lamares

Paula Lamares
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Depois fui amanhecendo, um fiozinho de mim por ali afora, dias adentro de varanda ao colo. Até que comecei a pegar aos poucos na rédea do enfado, a realidade menos pegajosa e morna, devagarinho a vestir-me de mim:... Acendia-se as primeiras luzes na serra. Se me desse na veneta hoje voltaria a escrever. Desde então não paro de nascer.
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