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  • September 20, 2019
Imagem Youtube do novo vídeo oficial de Maria Leal
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Portugal é um país de fases. Por exemplo, a fase pré-Madonna Ciccone. Nesta fase estamos a falar de um país obscuro e cinzentão, cheio de gente vestida de vários tons de cinzento. Só os mais atrevidos, mormente políticos e bancários, usavam gravatas amarelo impactante, azul cueca ou cor-de-rosa bebé. Um país onde só se ouvia o fado e os filmes consistiam em histórias rurais de gente desalinhada que levam 30 minutos a abotoarem as botas.

Um país terrivelmente marcado pela ditadura que continua, quatro décadas depois, a amar incondicionalmente o seu ditador – um verdadeiro case study para os estudiosos do Síndrome de Estocolmo. Um país onde o povo não vai ao dentista, mas tem um record de vendas de carros topo de gama. Onde as crianças podiam apanhar sol e chuva na cabeça e respeitavam imenso os professores. Onde as mulheres engordavam depois dos 30 e os homens iam “engravidando” até aos 70. Onde as artes eram consideradas absolutamente desnecessárias e as pessoas não tinham educação musical.

Um país só visitado por ingleses bêbados que perdiam as criancinhas ou por turistas holandeses que usavam meias com sandálias de tiras aderentes. Um país de parques de campismo, de peixe fedorento, de praias paradisíacas decoradas por blocos de construção, de gente pequenina com jeito para o fandango, de mangas-de-alpaca corruptos e moralistas de catequese reunidos numa só pessoa. Dos padres pitorescos que cuidavam de todos, sobretudo dos que morriam ricos. Um país olvidável e pouco recomendável, no cú da civilização moderna.

Depois temos a fase pós-Madonna. A fase onde o fado é elevado a música pop e o cante alentejano a canto lírico. Onde todos cantam e gravam videoclips, embora continue a não haver educação musical nas escolas. Onde todos escrevem livros, mas onde ninguém lê… livros. Onde as crianças já não podem apanhar sol nem chuva na cabeça, mas, em contrapartida podem bater nos professores.

Um país renovado, aberto, moderno e hipster-culto que uma espécie de geringonça governa. Um país que atraí todas as idades, géneros e etnias a conviverem em restaurantes e bares modernos na capital mais “in” do momento. Um país que recebe mais Óscares de Turismo do que a Meryl Streep no cinema. Um país com uma capital resplandecente, alternativa e multicultural, submetida ao poder oligárquico da EMEL que põe os carros na linha. Onde os CEO andam de trotinete à bolina do vento e os banqueiros promovem startups em offshores. Uma capital de prédios renovados e fachadas dignas de um Siza Vieira, mas onde a Athina Onassis só teria dinheiro para alugar quanto muito um T0 de 65 m2.

Mas, este é e continua a ser um país de acentuados contrastes, onde a sombria mentalidade medieval se encontra à esquina com a mentalidade urbana e esclarecida e ficam as duas em amena cavaqueira, a beber “bejolas” e a tocar concertina. Tal promiscuidade às vezes dá para o torto como se viu, recentemente, no incidente diplomático que opôs a República Portuguesa à República das Bananas by Madonna.

Este é um verdadeiro caso de relações internacionais que irá denegrir a imagem de Portugal por este mundo fora. De nada nos vão servir o clima, a comida, o Benfica e as praias seguras. Tudo porque um pirralho presidente de câmara, perfeito representante da tal mentalidade medieval e tacanha do tempo da outra senhora, que impediu a Constelação Madonna de fazer um videoclip com um puro-sangue de 600 quilos a dançar sapateado num soalho de um palácio oitocentista. Este grave incidente, para além de acabar com o mito de que somos o povo mais diplomático do mundo, mostra, sobretudo, a ingratidão do povo português.

Este povo que lavava no rio antes de Madonna chegar e, que agora, graças aos posts no Instagram da estrela pop, todos passaram a ter acesso a crédito para comprar os últimos modelos de máquinas de lavar roupa. O namoro de Madonna com Portugal acabou e nem sequer deu num mulatinho para contar a história. Está bem que a Senhora está a expirar a validade, mas não seja por isso, já que adotamos o Iker Casillas sem qualquer polémica.

Hello! Defensores da igualdade de género?!

Imagem Youtube do novo vídeo oficial de Maria Leal
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Portanto, a Madonna foi-se, mas sempre temos a nossa genuína Maria Leal.

Eis que Portugal entra, assim, numa nova fase – Fase da Lealdade. Qual Conan Osíris qual quê? Este nunca representará tão bem o país em qualquer festival como o faria a Maria Leal. Isso dos Telélés do Osíris é só para hipsters pós-millennials que o vulgo homem comum não entende.

Ao menos a Maria Leal está com o povo e fala para o povo e agora também para as criancinhas, senão vejamos o seu último trabalho: “Ta ta ta ta ta ta taratata /Tá demais /traz os teus pais /isto vai ser uma animação”. Isto é que é poesia, não aquela que fala sobre mortes e telemóveis partidos.

Com animação garantida para as famílias e, ainda, desconto em cartão, porque raio é que nós precisamos de “Like a Virgin?” a pavonear-se no Bairro Alto?

Paula Lamares

Paula Lamares
paula.shortsories@gmail.com

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